Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Não esqueci

Hoje é o dia em que muitas pessoas vão ao cemitério visitar as campas das pessoas queridas que morreram, se bem que por vezes nem são queridas, fazem-no como se fossem obrigados, mera cortesia. Como quase todos, ou mesmo todos os assuntos, este está recheado de ironia, hipocrisia e de falsas simpatias.

 

Acordei cedo, tomei duche, e ainda meio a dormir, vesti-me. Não pensei em nada. Dirigi-me à igreja para assistir à missa, mas foi quase vão, não ouvi metade do que o padre disse. Sozinha, como sempre,pois o meu irmão já não vai a uma igreja desde que a nossa mãe morreu, e o meu pai também, aliás nem falo com ele há bastante tempo.

 

Por vezes, fico a observar as pessoas que vão à missa. Os mais idosos dormem, os mais novos correm de um lado para outro. Há quem, como eu, às vezes se perca nos seus pensamentos e divagações acerca de tudo um pouco, até do que o padre diz e que se ouve uma vez por outra.

 

Quando a missa acaba dirijo-me ao portão preto, alto, com uns desenhos estranhos que permanecem na minha memória.Vejo que as outras pessoas também se dirigem para lá, levam flores. Eu não. Acho que as pessoas as apreciariam se tivessem vivas,não depois de mortas, não lhes vale de nada. Não podem sentir as pétalas fugidias de várias cores, de diversas formas, não podem sentir o seu cheiro, seja ele mais agreste ou suave. Prefiro dar as flores enquanto as pessoas ainda as podem apreciar.

 

Percorri o trilho largo que dá para muitos carreiros mais pequenos, labirintos minisculos que contornam as campas. Observei e tentei perceber qual o melhor caminho para chegar onde queria. Decidi-me e avancei. Os minúsculos passeios por onde tínhamos que passar encontravam-se cheios de terra e lama. Reparei em certas campas mesmo pequenas. Odeio ir ao cemitério, traz-me má recordações. Vi a foto, conhecia-a. Parei à frente da campa e rezei, duas ou três vezes a mesma coisa, mas rezei. Acho que nem prestei atenção ao que dizia, concentrei-me apenas no que eu pedia.

 

Relembrei-me do dia do enterro, é algo que nunca esquecerei. Às vezes gosto de pensar que não aconteceu, que foi apenas um sonho mau  como quando eu era pequena. Falar disso ainda mexe comigo, lembro-me de pormenores que aconteceram. Prometeste que me ensinavas a dar mergulhos. Ainda hoje não sei dar, nem tento. Já passaram três anos, mas não esqueci.

sinto-me:

publicado por barbro às 17:34
link do post | comentar | favorito

-Quem somos

-Pesquisar neste blog

 

-Janeiro 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


-Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

-Posts recentes

- Again

- Não esqueci

- O reencontro

- Em recuperação

- Já não é paranóia, é real...

- Surpresas...

- Olá!

- 1-Hoje

-Arquivo

-Tags

- todas as tags

SAPO Blogs

-Subscrever feeds